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  • Revista Traços

Mar calmo não faz bom marinheiro, será?

Atualizado: Set 22


Memory Luz

(Brasília-DF)


Tem períodos de calmaria, em que o céu é de brigadeiro e o mar de almirante. Nenhuma turbulência acima ou abaixo do meu Equador. Costumo chamar de marasmo, monotonia, enfado. Tudo irremediavelmente previsível e perfeitamente em seus lugares.

Se é verão, calor. Se inverno, frio. Normal, previsível e lógico. Saúde perfeita, graças a Deus. A minha e a dos demais.


A casa em ordem, os filhos indo bem na escola, trabalho na medida certa da carga horária e chefe bem humorado. Quem quer mais ou menos? Navegar é preciso e se em mar de almirante então, maravilha!

Mas a previsão, quando há, traz chuvas e tempestades adiante. O céu de brigadeiro escurece e se carrega de nuvens negras. O mar de almirante, espelho, espelho meu, reflete o escuro do céu e agita-se com a tempestade e minha vida, antes monótona e previsível, passa a ser conduzida pelo capricho do vento contra o qual você desiste de lutar.


Prá começar, alguém distante, mas importante para você, adoece e precisa de socorro. Você, milhas e milhas distante, enlouquece tentando ajudar. A empregada vai embora às vésperas de uma cirurgia importante que você não pode deixar de fazer. Seu trabalho começa a acumular e você passa a ficar mais tempo no trabalho para não aumentar o mau humor do chefe, que há uma semana enfrenta uma crise no casamento. O cara com quem você vinha saindo, e estava empolgadíssima, não te liga há uma semana e nem curte suas postagens melosas e de efeito publicadas no seu perfil do facebook e do instagram. Seu contato com o mundo e do mundo com você começa a ficar prejudicado já que a conexão da Internet não está das melhores.

Aí você começa a se sentir isolada, sozinha, perdida no meio de tantos problemas. O que fazer? Como fazer? A vida corre rápida, na velocidade da luz ou em alguma outra superior a ela. Os problemas não ficam melhores e por algum efeito cascata vão se somando uns aos outros até quase toldar seus olhos e seu discernimento.


Você começa a pensar que chegou ao fim do túnel e não encontrou, e nem vai encontrar, a luz que a levará de volta ao início dele. Pensa em pedir demissão, mas a internet no trabalho te mantém conectada ao mundo e aos “amigos”. Delírio puro! Se pedir demissão como pagar uma empregada, contratar uma internet melhor, ajudar o parente distante que precisa de você e dividir a conta com as amigas na balada para não ficar se lamentando pelo cara que não te liga há uma semana?

Pois é, é assim que estou me sentindo em meio a esta tempestade que me pegou de cheio. Perdida, sozinha, desamparada. Posso pedir demissão do meu trabalho, mas não vou. Resolvi pedir à irmã da minha empregada para vir trabalhar para mim. Restaurei minhas conexões pessoais e pelas redes sociais, mas continuo sozinha, pensando em tudo e em nada. Ando sem rumo, um pouco desorientada. Um barco sem rumo, sem porto, sem vela, mas ando com fé, pois a fé não costuma falhar.


Aproveito a tempestade, e entre uma vaga e outra eu grito e choro. Não importa quem vai me ouvir. O importante aqui é que eu possa me ouvir. Enquanto o acaso me protege, vou enfrentando a tempestade até a bonança chegar, pois depois da tempestade sempre vem a bonança, e com ela o mar de almirante, o céu de brigadeiro, o marasmo, a monotonia e o que mais quiser chegar.


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