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  • Revista Traços

Recordações de uma parede


Waldemar Nicolau nasceu em Jaú, interior de São Paulo, em 19 de novembro de 1933. Formou-se cirurgião-dentista pela Universidade Estadual Paulista (UNESP) de Araraquara no ano de 1957. Cultiva desde jovem uma grande paixão pela arte, em especial pela literatura e pela música, a qual continua a alimentar aos 87 anos. Um exemplo de persistência e amor à literatura para um final de segunda-feira chuvoso aqui pelos lados do sul.


Leia agora o conto "Recordações de uma parede"


Costuma-se dizer que as paredes têm ouvidos. Isto significa que as pessoas devem ser discretas, e mesmo não havendo ninguém ao seu redor, devem tomar certos cuidados. Elas – as Paredes – ouvem, mas não falam, e nisso parece haver uma espécie de contradição para tanta reserva, pois qualquer assunto confidencial não poderia ser revelado e aí haveria uma salvaguarda de possíveis segredos.

Sucede que eu sou uma parede, situada numa mansão luxuosa, pertencente a uma tradicional família paulistana, em prédio construído no auge da cultura do café, no início do século XX. Estou localizada na sala de visitas da propriedade, local de tantas festas e reuniões oferecidas pela quatrocentona família Barreto Camargo. Quantos acontecimentos não testemunhei aqui!

Lembro-me bem de uma festa maravilhosa que comemorava o oitavo aniversário de Cristina, a netinha da família. Muita música ao vivo, salgados e doces em profusão. Lá estava a aniversariante, comendo bolo, enquanto observava no corredor ao lado um beija-flor que sugava um refrigerante pendurado em um frasco.

A avó, comovida, “alertava” a netinha:

- Cuidado, Tininha, o beija-flor pode confundir você com uma flor e dar-lhe uma bicada! - Ah, aquela época em que a ternura não parecia tanto piegas quanto ridícula como é encarada hoje.

Mas fui testemunha também de amores clandestinos, alguns fugidios, sem maiores consequências, e outros trágicos, como o de Roberto, chefe do clã, com uma sedutora dama da sociedade paulistana, Marisa de Tal. Estava Roberto já entrando na idade madura, quando lhe prateavam os cabelos e as primeiras rugas sulcavam-lhe o rosto bronzeado. Sentados no sofá ou encostados em mim, trocavam muitas carícias.

- Como você demorou. Achei que você não viria mais, por causa da nossa última briga.

- Precisei de uma boa desculpa para sair de casa, meu marido anda desconfiado de nós dois. - respondeu a ofegante Marisa.

Mas, chegando de surpresa uma noite, o marido traído de Marisa “lavou sua honra”, conforme fora justificado o ato pelo pensamento retrógrado da época, assassinando covardemente os dois apaixonados amantes. Vários tiros, duas pessoas mortas, estendidas no chão, e poças de sangue pelo chão e respingos na minha parede.

Nos dias seguintes fui lavada várias vezes, mas até hoje ainda sinto aquele odor horrível de sangue.

Esse fato constrangedor e trágico, associado à crise econômica de 1929, levou a família à ruína financeira e moral. Logo em seguida, o governo paulista comprou a mansão, lá instalando a Secretaria de Segurança Pública.

Esta parede onde me situo dava para um corredor, que através de uma escada, levava ao sótão da residência.

Eram os anos setenta. Ouvi muitos gritos – “Socorro, eu não sei onde eles estão escondidos”. Berros e gemidos cortavam as madrugadas dos presos políticos torturados impiedosamente nos porões da Revolução de 31 de março de 1964. Mas, após alguns anos, o governo paulista vendeu o prédio para uma poderosa construtora, que decidiu derrubar o edifício e construir um imponente hotel. Tudo vai indo para o chão. O barulho das máquinas derrubando paredes, telhados, janelas, tudo enfim, é ensurdecedor. Já estão chegando à sala onde estou e na qual recordei tantos acontecimentos, além dos já citados.

É o fim do meu “habitat”.

As paredes têm ouvidos, mas não falam.

Mas as paredes escrevem.


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